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1. Diagnóstico
Ele morria lentamente, como todas as nações morrem: os primeiros sinais foram os cabelos, que se tornaram finos, quebradiços. Depois, a pele, ficando mais que branca, transparente. Um observador cuidadoso notaria os vasos capilares fazendo sua pequena rede rósea pelo rosto sempre confiante, a fragilidade outrora tão bem escondida agora quase óbvia.
Os olhos primeiro foram clareando, passando do vermelho-sangue (vermelho-fúria, vermelho-loucura, vermelho-fé) para um rosa delicado, e suave e lentamente escurecendo de novo para um tom violáceo, quase azul.
As alterações foram rápidas para uma nação antiga, contudo cheia de vida como ele, rápidas demais; contudo lentas e imperceptíveis para uma nação jovem e frenética como o irmão, a efervescente e ocupada Alemanha não havia de perceber que o “fim” de seu “começo” chegava. Já estava escrito, já era definido, oficial: “Gilbert”, a nação mais famosa pelo nome de “Prússia”, invasor de meia Europa, deus da guerra germânico, tinha que cair. O mundo não podia mais suportar alguém como ele. E ele não podia mais pertencer a esse mundo. Nunca se encaixaria nesse lugar tão diferente. Era tudo rápido demais, rápido, diferente e cruel.

2012.
O alemão mais velho sempre comentava que ele é que era o “Dragão” a reger esse ano; e que traria o fim do “mundo” que todos esperavam, segundo previsões malucas e cientistas aleatórios.
Ano-Novo, as nações reunidas na casa de Ludwig, meio que na expectativa de que algo… bem, “awesome” acontecesse. O tão esperado Apocalipse, afinal “Prússia” não mente. Vangloriar-se talvez, mas não mentir; as glórias que cantava eram reais. Olham para o alemão quebradiço, que ria e se divertia com os dois amigos, alheio às tensões.
Berliner Dom toca alegremente, anunciando um 2012 inofensivo enquanto as nações soltam a respiração presa e olham-se em suspeita. Ele nunca mentira antes, por que agora?
“Gilbert” meramente sorriu, olhando o irmão de esguelha, e passa uma mão nos cabelos de um dourado claro, versão pálida, moribunda de Ludwig. Era chegada a hora. Mas nada aconteceu.
2. Prognóstico
Ludwig comemorava com os amigos Feliciano e Kiku a chegada do Ano-Novo Chinês, apreciando as comidas típicas de Yao e assistindo fascinados o desfile de dragões pelas ruas de Beijing. Os fogos de artifício chineses, mais que artísticos, quase divinos, distraindo o italiano e o japonês do suave toque de mensagens no celular de Ludwig, a expressão que o toma ao ler a SMS curta e simples, algo inominável, próximo talvez de esmorecimento. Ele sai em silêncio do local, despercebido, e parte para casa.
Desespero, abandono, solidão, solidão a mais profunda, solidão de alma, metade de sua alma sumia naquele instante, parte de si, seu pai e senhor, seu filho e escravo, seu irmão partia.
Não queria perdê-lo.
Ao menos um adeus.
Quando Alemanha chega no quarto do irmão, agora apenas uma sala branca com dezenas de gaiolas douradas abertas, nenhum pássaro nelas (como não pôde notar?! Ele desaparecia a olhos vistos!), o celular dele, que agora tocava freneticamente, o visor ora mostrando a bandeira espanhola, ora a francesa, uma após a outra, Francis e Antonio frenéticos, e uma enxurrada de mensagens começa quando Ludwig finalmente o vê, como se ele houvesse aparecido somente agora.
Estava de pé, lúcido, sorrindo. Não parecia sofrer, nenhuma dor, calmo. Vestia uma camisa preta de um tecido mole, mangas longas, sem qualquer enfeite. A Cruz de Ferro, pingente e alma a um tempo, brilhava estranha, quase reluzia sobre o tecido negro, cintilava? Vestia calças brancas de jeans, cheias de bolsos, cada um deles lotado de coisas, câmeras, doces, cheia de bottoms numa das pernas, todas de fotos. Lembranças. Descalço, mãos e pés finos, quase transparentes, delicados.
Então, por último, Ludwig percebe grandes asas negras, aquilinas, saindo das costas do irmão. Fecha os olhos, desejando pela última vez que a bandeira prussiana estivesse atrás do irmão. Não estava.

3.Fatalidade
“Gilbert” tenta falar. A voz falha, e isso parece previsível para o alemão, pois ele vira o rosto devagar para o Gilbird atrás de si, sobre um pequeno aparelho de som, e a este sinal o pássaro liga o som. Os violinos do Coldplay enchem a sala silenciosa. Ludwig ainda não conseguia se mexer, e sente que provavelmente o irmão não queria que se movesse. Queria que escutasse.
I used to rule the world
Seas would rise when I gave the word
Now in the morning and I sleep alone
Sweep the streets I used to own
Ele “dubla” o cantor, uma mão sobre o peito, sorrindo para o irmão e se aproximando muito, muito devagar. Nada além da vontade de dizer adeus o mantinha no mundo.
Aproxima-se do irmão, tocando-lhe o rosto com a ponta dos dedos, parando de “cantar” para apenas olhá-lo, os olhos cansados cheios de orgulho.
Imóvel, Ludwig se limita a derramar duas lágrimas. O irmão agora se tornava um “Antigo”, como Roma, Germânia, Eslávia, Grécia Antiga e Egito Antigo eram.
Um patamar acima.
Esquecidos. História apenas. Mortos.
I used to roll the dice
Feel the fear in my enemy’s eyes
Listen as the crowd would sing
“Now the old king is dead! Long live the king!”
O albino tenta falar algo, mas a voz lhe falha. A primeira coisa a morrer realmente numa nação é sua voz, sua capacidade de exprimir dor, amor, deleite, desagrado. Algo rouco sai, mas ele desiste, precisaria daquele fio de voz mais tarde; sorri e, “cantando” junto sobre um novo rei, tira uma coroa imaginária da própria cabeça e a coloca sobre a cabeça do irmão.
Ludwig já falhava em conter as lágrimas, a expressão o mais austero possível. “Gilbert” não precisava de lágrimas, não, nunca precisou. Principalmente as do irmão. Este, ah, este deveria ser sempre feliz.
One minute I held the key
Next the walls were closed on me
And I discovered that my castles stand
Upon pillars of salt and pillars of sand
O albino então se vira, dando as costas para o irmão e pegando o pequeno pássaro em suas mãos. Ludwig pode ver agora as asas, que saem suaves da camisa de meia, como se fossem um enfeite dela, imensas, imitando a águia da antiga bandeira. Ele imagina então se morreria junto do irmão. Deseja secretamente isso.
I hear Jerusalem bells are ringing
Roman Cavalry choirs is singing
Be my mirror, my sword and shield
My missionaries in a foreign field
For some reason I can’t explain
Once you go there was never
Never an honest word
That was when I ruled the world
O albino se vira devagar, colocando Gilbird sobre a cabeça de Ludwig; este se recusa, como sempre, e volta para os cabelos finos, seu lar. O Antigo suspira e dá de ombros, como se dissesse “Bem, eu tentei”. Passa dedos finos e frios pelos cabelos loiros, acariciando-o.
E repentinamente, pouco antes do refrão acabar, fica extremamente sério.
It was the wicked and wild wind
Blew down the doors to let me in
Shattered windows and the sound of drums
People couldn’t believe what I’d become
“Cantando” junto, quase sem mover os lábios, “Prússia” retira uma luva, mostrando uma pequenina tarja cor-de-pele ao irmão, que parecia sempre ter estado lá. Diante do olhar chocado de Ludwig, ele retira a tarja e mostra seu único segredo para com Alemanha, pequenos números tatuados. Terríveis, crueis, lembrança do mal que haviam feito ao mundo, mal a si mesmos, que haviam manchado a tão gloriosa história alemã, e mal ao mundo, que perdeu milhões de vidas por nada, nada. Por orgulho. Por ideias vãs. A lembrança do porquê o mais velho agora desvanecia.
Por que nunca era punido?! A pergunta ecoava na mente de Ludwig, e tentava sair a todo custo por seus lábios. Por quê?!
Revolutionaries wait
For my head on a silver plate
Just a puppet on a lonely string
Oh who would ever want to be king?
“Porque dói mais quando é em meu irmão que em mim”, reflete o alemão, incapaz de fazer qualquer outra coisa que não assistir e tentar não chorar mais.
I hear Jerusalem bells are ringing
Roman Cavalry choirs are singing
Be my mirror, my sword and shield
My missionaries in a foreign field
For some reason I can’t explain
I know Saint Peter won’t call my name
Never an honest word
But that was when I ruled the world
Novo refrão, e “Gilbert” canta junto, extremamente rouco, o sotaque alemão, estranho até para Ludwig, Ossie, rogando ao irmão que fosse seu espelho, espada e escudo enquanto com as duas mãos, limpa suas lágrimas calmamente, pedindo que fosse seu missionário.
- Não fui uma nação benéfica ao mundo… - sussurra sorrindo, Chris Martin cantando que São Pedro não o chamaria. Ludwig apenas o encara desesperado, tentando com todas as forças lhe dizer que não era verdade, que fora mais que benéfico, que fora perfeito, o melhor, o maior de todos. Tentou dizer que o amava.
Não se vá.
Os violinos começam seu solo, e “Prússia” fica da altura de Alemanha. Flutuava. A nação decrépita pisca uma, duas vezes, e a cor dos olhos volta ao original, o escarlate tão estranho e tão belo. O cabelo vai voltando à cor branca, começando da raiz, enquanto ele se aproxima do irmão e abre os braços.
Quando ele o abraça com força, a força que sempre teve, e Ludwig consegue abraçá-lo de volta enfim, Berliner Dom toca seus sinos junto ao refrão, o mesmo toque de júbilo, dando seu adeus com orgulho e não lágrimas. Do lado de fora da mansão, o povo comemora alegremente, sem razão aparente, apenas porque… era Ano-novo chinês! Estavam vivos!! Alemanha vivia!!! Alegria, alegria! Viva La Vida!!
Hear, Jerusalem bells are ringing
Roman Cavalry choirs are singing
Be my mirror, my sword and shield
My missionaries in a foreign field
For some reason I can’t explain
I know Saint Peter won’t call my name
Never an honest word
But that was when I ruled the world
A voz soa clara, como se nada tivesse acontecido:
- Os sinos me chamam, meu irmão. Já está na hora. Minha maravilhosa pessoa sempre estará em você, inscrita na sua alma, - e toca a Cruz do irmão, ainda o abraçando com a outra mão – nesta casa, nesta nação. Não morrerei por completo enquanto você viver. Mas não esta forma, “Gilbert”, “Prússia”, essa… coisa que me abriga, a nação que eu sou tem que morrer. O mundo mudou. Comigo, cai o “Mundo Antigo”, sou o último desta era de doença, fome, morte. Você… Todos vocês, todo este mundo imenso e maravilhoso são vida e luz. Você que sempre foi a minha luz, a minha vida, agora o é para todo o mundo. Glória eterna a Alemanha, vida e glória e luz para a fênix germânica que mal nasceu, já fez o maior mal e o maior bem de todos!
E sorri, o sorriso doce reservado apenas para o irmão.
Os violinos tocam, baixinho, como que prestando atenção. O mais novo consegue finalmente falar:
- Fênix são imortais. Fique.
- Fênix não são imortais. Uma morre para que outra nasça, sacrifício para a glória de sua cria.
Uma última lição de vida.
E então, Ludwig não abraçava mais nada além de si mesmo, uma Cruz de Ferro à sua frente, junto do celular que tinha o papel de parede do próprio Alemanha, sorrindo como nunca mais sorriria.
A música cala.
O mundo acaba para Ludwig. Prússia nunca mente.
Apocalipse.

Me: Oh. My. God. This is amazing.

